Brancos e nulos atingiram pico em 2018 na Paraíba e recuaram em 2022

Série de quatro eleições gerais mostra que o avanço dos votos não válidos não foi contínuo. Senado teve os maiores percentuais do período, enquanto 2022 interrompeu a alta observada em 2018.
Por O NORTE • Dados: TSE e TRE-PB

Uma curva, não uma linha reta
A história dos votos brancos e nulos nas eleições gerais da Paraíba entre 2010 e 2022 não descreve uma trajetória contínua de crescimento. Os dados mostram oscilações importantes entre os pleitos e um ponto de inflexão bastante claro: 2018.
Na disputa para governador, a soma de brancos e nulos caiu de 15,16% em 2010 para 12,83% em 2014, saltou para 20,98% em 2018 e voltou a 14,70% em 2022. Entre deputados federais, passou de 12,52% para 17,04%, atingiu 18,32% e depois recuou para 13,08%. Na Assembleia Legislativa, a sequência foi de 10,33%, 13,92%, 15,77% e 11,94%.
O mesmo desenho aparece no Senado, embora com uma diferença metodológica importante. O percentual chegou a 29,59% em 2018 e caiu para 21,51% em 2022. Por isso, a leitura da série é mais precisa quando se observa cada eleição e cada cargo separadamente, em vez de resumir o período por uma média única.

2018 foi o ponto de maior concentração
Os quatro cargos analisados registraram em 2018 o maior percentual de votos brancos e nulos dentro da série 2010–2022. O fenômeno foi particularmente forte na eleição para governador: a proporção avançou 8,14 pontos percentuais em relação a 2014, de 12,83% para 20,98%. Em termos relativos, o aumento foi de 63,45%.
O crescimento de 2018 foi puxado sobretudo pelos votos nulos. Para governador, eles representaram 16,31% dos votos para o cargo, enquanto os brancos ficaram em 4,67%. Para senador, os nulos chegaram a 20,45%; para deputado federal, a 11,56%; e para deputado estadual, a 10,15%.
Esse comportamento não autoriza concluir, sozinho, que houve protesto, rejeição aos candidatos ou desinteresse pela política. O dado registra o resultado na urna. As razões que levaram cada eleitor a votar em branco, anular ou errar a digitação exigem outras evidências, como pesquisas de opinião e estudos de comportamento eleitoral.

O Senado é um caso à parte
Em todas as quatro eleições analisadas, o Senado apresentou a maior proporção de votos brancos e nulos entre os cargos examinados. Foram 22,45% em 2010, 25,30% em 2014, 29,59% em 2018 e 21,51% em 2022.
A comparação, porém, exige um cuidado que muda completamente a leitura dos números absolutos. Em 2010 e 2018, cada eleitor podia escolher dois candidatos ao Senado, porque havia duas vagas em disputa. Em 2014 e 2022, havia apenas uma. Para comparar os anos corretamente, é necessário usar como denominador o total de votos possíveis para o cargo, e não apenas o número de eleitores que compareceram.
Feita essa normalização, 2018 continua sendo o maior nível da série para o Senado. O resultado, portanto, não é um efeito artificial da existência de duas vagas.
2022 interrompeu a alta
Quatro anos depois, a direção se inverteu. Entre 2018 e 2022, a participação de brancos e nulos diminuiu nos quatro cargos: 6,28 pontos percentuais para governador, 8,08 no Senado, 5,23 para deputado federal e 3,83 para deputado estadual.
A redução foi suficiente para levar três dos quatro cargos a percentuais inferiores aos de 2014. Em 2022, deputado federal ficou em 13,08%, contra 17,04% oito anos antes; deputado estadual, em 11,94%, contra 13,92%; e senador, em 21,51%, contra 25,30%. Governador foi a exceção: terminou 2022 em 14,70%, ainda 1,87 ponto percentual acima de 2014.
Quando se amplia o horizonte para 2010, a leitura fica ainda mais cautelosa. No caso de governador, a taxa de 2022 ficou praticamente no mesmo patamar de doze anos antes: 14,70% contra 15,16%. Isso reforça que 2018 foi uma eleição fora do padrão da série, e não necessariamente o início de uma tendência permanente.

Paraíba e Brasil
Em 2022, a Paraíba registrou percentuais de brancos e nulos superiores ao agregado nacional nos quatro cargos analisados. Para governador, foram 14,70% no estado e 11,94% no país. Para senador, 21,51% contra 18,72%. Para deputado federal, 13,08% contra 10,54%. Para deputado estadual, 11,94% contra 10,95%.
A série completa também mostra uma diferença persistente em dois cargos: Senado e deputado federal ficaram acima do índice nacional nas quatro eleições examinadas. Em deputado estadual, a distância foi pequena em 2010, 2014 e 2018 e aumentou em 2022.
Comparações nacionais ajudam a dimensionar o fenômeno, mas não explicam suas causas. Diferenças de oferta de candidaturas, grau de conhecimento dos nomes, escolaridade, perfil demográfico, tamanho dos municípios e características da campanha são hipóteses que precisam ser testadas antes de qualquer interpretação causal.

O que os números dizem — e o que não dizem
Voto branco, voto nulo e abstenção são três comportamentos distintos. O eleitor que não comparece não entra no mesmo universo de quem vai à seção eleitoral e registra um voto não válido. Também não é possível tratar automaticamente branco e nulo como manifestações equivalentes.
No período analisado, a principal informação estatística é objetiva: 2018 concentrou os maiores percentuais de brancos e nulos para governador, senador, deputado federal e deputado estadual; em 2022, todos recuaram. O Senado permaneceu como o cargo com maior proporção de votos não válidos na série.
A próxima etapa da investigação é municipal. Os arquivos do TSE e do TRE-PB permitem descer aos 223 municípios da Paraíba e identificar onde os percentuais foram mais altos, onde mais cresceram entre 2014 e 2022 e onde houve maior redução. Essa leitura pode mostrar se o padrão estadual se distribui de forma homogênea ou se há bolsões com comportamento muito diferente da média.
COMO FOI FEITA A CONTA
| Para cada cargo, o percentual de brancos + nulos foi calculado sobre o total de votos possíveis. Para governador e deputados, o denominador corresponde ao comparecimento. Para o Senado, 2010 e 2018 exigem duas vezes o comparecimento, porque cada eleitor podia registrar dois votos. Os dados foram levantados nas bases e relatórios oficiais do TSE e do TRE-PB. A análise usa o primeiro turno para governador. |
SÉRIE RESUMIDA: BRANCOS + NULOS (%)
| Cargo | 2010 | 2014 | 2018 | 2022 |
| Governador | 15,16 | 12,83 | 20,98 | 14,70 |
| Senador | 22,45 | 25,30 | 29,59 | 21,51 |
| Deputado federal | 12,52 | 17,04 | 18,32 | 13,08 |
| Deputado estadual | 10,33 | 13,92 | 15,77 | 11,94 |
Fontes e notas
TRE-PB — Eleições 2014, resumo do 1º turno: https://www.tre-pb.jus.br/eleicoes/eleicoes-anteriores/eleicoes-2014/resumo-do-resultado-da-votacao-das-eleicoes-2014-1o-turno
TRE-PB — Resultados das Eleições 2018: https://www.tre-pb.jus.br/eleicoes/eleicoes-2018/resultado-das-eleicoes-2018
TRE-PB — Eleições 2022: https://www.tre-pb.jus.br/eleicoes/e/eleicoes-2022
TRE-PB — Resultados históricos: https://www.tre-pb.jus.br/eleicoes/e/resultados-historicos
TSE — Portal de Dados Abertos: https://dadosabertos.tse.jus.br/
Nota editorial: os percentuais descrevem votos registrados como brancos e nulos. Eles não permitem, por si só, inferir intenção política, protesto, rejeição ou erro do eleitor



