Campina Grande, 162 anos: da terra dos tropeiros à cidade que aprendeu a se reinventar

Da Vila Nova da Rainha ao protagonismo no comércio, na indústria, na educação e na tecnologia, a Rainha da Borborema construiu uma história marcada por transformações que ajudaram a redefinir o interior da Paraíba.
O Açude Velho é um dos principais cartões-postais de Campina Grande e um símbolo de sua transformação urbana. Foto: Cacio Murilo/Ministério do Turismo.
Campina Grande completa 162 anos neste domingo, 11 de outubro, com uma trajetória que se confunde com o desenvolvimento econômico, cultural e social da Paraíba. Muito antes de se tornar referência em educação, tecnologia e grandes eventos, a cidade foi ponto de passagem de tropeiros, comerciantes e viajantes que cruzavam a Serra da Borborema. A posição geográfica favoreceu o surgimento de feiras e estabelecimentos comerciais, dando origem a uma vocação econômica que atravessaria gerações.
A formação da cidade remonta ao período colonial, em uma região originalmente habitada por povos indígenas, entre eles os Ariús. Em 1790, o povoado foi elevado à categoria de vila, recebendo o nome de Vila Nova da Rainha. Décadas depois, em 11 de outubro de 1864, a Lei Provincial nº 127 reconheceu Campina Grande como cidade, estabelecendo a data que hoje marca oficialmente seu aniversário.
O algodão e a chegada do progresso
O comércio foi determinante para a expansão de Campina Grande, mas foi o algodão que deu à cidade projeção econômica nacional. Nas primeiras décadas do século XX, o chamado ouro branco movimentava armazéns, atraía comerciantes e fortalecia as relações com outros centros de produção e consumo. Campina Grande consolidou-se como um importante polo de comercialização algodoeira, tornando-se conhecida pela intensidade de suas atividades mercantis.
A chegada da ferrovia, em 2 de outubro de 1907, representou uma mudança decisiva. Os trilhos ampliaram as possibilidades de transporte, facilitaram o escoamento da produção e fortaleceram o comércio regional. O crescimento econômico também estimulou mudanças na paisagem urbana, embora a prosperidade não tenha alcançado todos os moradores da mesma forma.
Ao longo do século XX, a expansão comercial foi acompanhada pelo surgimento de novos bairros, equipamentos públicos e empreendimentos industriais. A cidade passou por reformas urbanas que modificaram o centro e parte de sua arquitetura tradicional. A Feira Central, os antigos mercados e os edifícios históricos ainda conservam marcas desse período, mantendo viva uma parte da memória dos trabalhadores e comerciantes que participaram de sua construção.
Das fábricas às universidades
A partir da segunda metade do século XX, Campina Grande encontrou novas oportunidades de crescimento. A indústria, o comércio e a expansão do ensino superior ajudaram a diversificar a economia. A cidade passou a atrair estudantes, professores, pesquisadores e profissionais de diferentes regiões do Nordeste.
A consolidação das instituições de ensino superior, especialmente nas áreas de engenharia, computação e ciências exatas, abriu caminho para o desenvolvimento tecnológico. Em 2002, a criação da Universidade Federal de Campina Grande, a partir do desmembramento da Universidade Federal da Paraíba, fortaleceu uma tradição acadêmica construída ao longo de décadas.
Ao lado da Universidade Estadual da Paraíba, dos centros de pesquisa e das empresas de tecnologia, a UFCG contribuiu para projetar Campina Grande como polo de conhecimento e inovação. A cidade que havia prosperado com a comercialização do algodão passou a ganhar reconhecimento também pela formação profissional, pela pesquisa científica e pelo desenvolvimento de soluções tecnológicas.
A cultura como identidade
Se a economia ajudou a transformar Campina Grande, a cultura teve papel fundamental para torná-la conhecida em todo o Brasil. O Maior São João do Mundo tornou-se uma das principais manifestações da identidade local, reunindo tradições populares, música, dança, gastronomia e atividades turísticas.
Mas a riqueza cultural campinense vai além das festas juninas. Está presente na Feira Central, no artesanato, na literatura de cordel, nos museus, nas manifestações artísticas e nas histórias das comunidades que participaram da formação do municí
O Açude Velho, construído originalmente para atender às necessidades de abastecimento de água, tornou-se um dos maiores símbolos da cidade. Seu entorno passou por transformações e reúne hoje espaços culturais, equipamentos urbanos e construções que representam diferentes momentos da história campinense.
A cidade que continua se transformando
Aos 162 anos, Campina Grande mantém sua importância como centro econômico, educacional e de serviços para o interior da Paraíba. Sua influência ultrapassa os limites municipais e alcança cidades que dependem de sua estrutura comercial, hospitalar, universitária e tecnológica.
O desenvolvimento, entretanto, também trouxe desafios. A expansão urbana exige investimentos permanentes em mobilidade, infraestrutura, habitação, saneamento e geração de oportunidades. O crescimento das atividades econômicas convive com desigualdades que ainda precisam ser enfrentadas.
A história de Campina Grande revela uma cidade que atravessou diferentes ciclos econômicos sem depender exclusivamente de uma única atividade. Nasceu como ponto de passagem, cresceu com as feiras, prosperou com o algodão, fortaleceu a indústria e encontrou na educação, na tecnologia e na cultura novas possibilidades de desenvolvimento.
Mais do que celebrar 162 anos, Campina Grande chega a este aniversário como exemplo de uma cidade que fez da capacidade de transformação uma de suas marcas. Da terra dos tropeiros à Rainha da Borborema, seu passado ajuda a compreender a importância que conquistou e os desafios que ainda tem pela frente.
Da Redação, O NORTE.



