A ironia do destino: autor do impeachment de Dilma agora se posiciona contra Flávio Bolsonaro

Miguel Reale Júnior participou do processo que impulsionou movimentos de direita no Brasil e, dez anos depois, declara voto em Lula
Há uma ironia do destino na trajetória política do jurista Miguel Reale Júnior, um dos autores do pedido de impeachment que resultou na saída da presidente Dilma Rousseff, em 2016. Naquele período, o movimento pelo afastamento da petista ganhou força nas ruas com a participação de organizações como o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem Pra Rua, que ampliaram sua projeção nacional e contribuíram para fortalecer setores da direita brasileira. Dez anos depois, Reale Júnior declara voto em Luiz Inácio Lula da Silva e se posiciona contra Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República.
A mudança de cenário chama atenção pelo papel desempenhado pelo jurista naquele momento da história política brasileira. Ao lado de Hélio Bicudo e Janaína Paschoal, Reale Júnior apresentou o pedido de impeachment que se tornou referência para as manifestações contra o governo Dilma. O processo contribuiu para reorganizar forças de oposição ao PT e ampliar o espaço político de movimentos conservadores e liberais. Agora, ao criticar Flávio Bolsonaro, o jurista afirma que votar no candidato seria legitimar a tentativa de ruptura institucional associada aos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023. Apesar de apoiar Lula, ele sustenta que não se arrepende de sua participação no impeachment.
O episódio revela uma das contradições da política brasileira na última década. Um dos protagonistas do processo que ajudou a fortalecer movimentos contrários ao PT hoje manifesta apoio ao presidente petista diante de uma candidatura que considera uma ameaça à democracia. Embora o impeachment de Dilma e a ascensão do bolsonarismo tenham causas e trajetórias distintas, a posição de Reale Júnior evidencia como antigos aliados em determinadas disputas políticas podem acabar em campos opostos. A ironia está justamente aí: um personagem importante daquele movimento agora se coloca contra uma das principais expressões da direita que ganhou força nos anos seguintes.
Da Redação, O Norte.



