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O que realmente pesa na hora do voto

Há uma tentação recorrente nas análises eleitorais: procurar uma variável capaz de explicar quase tudo. Em determinados momentos é o desempenho do governo. Em outros, a rejeição, o…

Por Cristóvão Pinheiro · Publicada em · Atualizada em

Por Cristóvão Pinheiro

Há uma tentação recorrente nas análises eleitorais: procurar uma variável capaz de explicar quase tudo. Em determinados momentos é o desempenho do governo. Em outros, a rejeição, o emprego, a inflação, a popularidade ou a força das redes sociais. O problema é que o eleitor raramente organiza sua decisão da maneira lógica que muitas vezes existe apenas na cabeça dos analistas.

Uma eleição presidencial reúne elementos objetivos e subjetivos ao mesmo tempo. O cidadão observa preços, renda, emprego e condições de vida, mas também reage ao medo, à esperança, à confiança, à identificação e à expectativa sobre o futuro. O que aparece nas estatísticas importa, mas não chega ao eleitor de forma pura. Passa pela experiência cotidiana, pela convivência social e pelo ambiente de informação em que cada pessoa está inserida.

É por isso que duas pessoas vivendo no mesmo país podem enxergar realidades completamente diferentes. Uma percebe avanço, outra estagnação. Uma reconhece melhora, outra sente que perdeu espaço. A política acontece justamente nesse intervalo entre aquilo que existe e aquilo que cada eleitor entende que está acontecendo.

As redes sociais aumentaram ainda mais essa complexidade. O candidato já não disputa apenas argumentos. Disputa atenção, presença e identificação com o eleitor. Vídeos curtos, cenas do cotidiano, humor, emoção, comida, música e exposição pessoal passaram a ocupar uma parte importante das campanhas. Não necessariamente porque sejam mais relevantes do que os grandes problemas do país, mas porque ajudam a abrir a porta para que o político seja visto e ouvido, o que, sem dúvida, é um desafio cada vez maior diante da falta de crédito atribuída à classe política.

Isso também explica por que campanhas aparentemente superficiais podem produzir forte conexão com determinados públicos. A mensagem política deixou de circular apenas em discursos, entrevistas e programas eleitorais. Hoje ela aparece diluída em gestos, imagens, comportamentos e conteúdos de poucos segundos.

Talvez o erro esteja justamente em buscar uma única resposta para explicar o voto. O eleitor não escolhe apenas pelo que recebe no bolso, nem apenas pelo que vê no celular. Ele combina experiência, percepção, confiança, rejeição e expectativa. E essa combinação muda conforme o momento, o candidato e o ambiente político.

As eleições presidenciais continuam sendo decididas por questões concretas. Mas o modo como essas questões são percebidas passou a ter um peso tão importante quanto os próprios fatos. É nesse espaço, cada vez mais disputado, que a política contemporânea começa a decidir seus vencedores.

*Cristovão Pinheiro é consultor político e estrategista de comunicação, com mais de 25 anos de experiência. Dirige a Metaverso Brasil, atuando com estratégia, inovação, tecnologia e comunicação. Foi reconhecido entre os 50 maiores estrategistas políticos da América Latina.