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Opinião

Quando a política vira performance 

Por Cristóvão Pinheiro · Publicada em

Foto: O norte/ IA

A campanha eleitoral de 2026 talvez venha a ser lembrada menos pelo que os candidatos disseram e mais pela forma como tentaram ser vistos. 

Nunca houve tanta comunicação e, paradoxalmente, tão pouco discurso. Em meio a vídeos curtos, memes, piadas, dancinhas, bordões, óculos transformados em adereço político e adesão quase instantânea às trends do momento, a campanha brasileira parece ter dado mais um passo na transformação da política em performance. 

Não é um fenômeno exclusivamente nacional. O político contemporâneo passou a disputar atenção no mesmo ambiente em que circulam influenciadores, humoristas, cantores, jogadores de futebol, celebridades e todo tipo de entretenimento. Na tela do celular, a fala de um candidato não aparece em um espaço reservado à política. Surge entre uma receita, uma fofoca, uma música e um vídeo engraçado. 

A consequência é evidente: antes de convencer, é preciso interromper. 

A política entrou definitivamente na economia da atenção. 

E, nessa economia, a complexidade quase sempre começa em desvantagem. Uma proposta para a Previdência exige explicação. Uma discussão sobre política fiscal exige contexto. Um programa para educação, saúde ou segurança precisa de algum tempo para ser compreendido. Uma dancinha não. Um meme tampouco. 

É nesse ponto que surge o personagem mais característico dessa nova era: o político tiktoker. 

Não se trata apenas daquele que possui uma conta no TikTok. É o candidato que incorporou à própria identidade a lógica do criador de conteúdo. Precisa produzir continuamente, acompanhar tendências, criar cenas, oferecer cortes, reagir com rapidez, descobrir o bordão do dia e transformar a própria personalidade em matéria-prima eleitoral. 

Nada disso é necessariamente ilegítimo. 

Uma campanha eleitoral não é um seminário acadêmico. Não existe para demonstrar erudição nem para premiar quem produz o raciocínio mais sofisticado. Campanha existe para ganhar eleição. Se humor, música, memes e vídeos curtos ajudam a ampliar alcance, criar identificação e conquistar votos, é absolutamente racional que sejam utilizados. 

O problema começa quando a performance deixa de transportar a mensagem e passa a substituí-la. 

Foi justamente essa fronteira que parece ter ficado mais tênue em 2026. 

A campanha brasileira tornou-se capaz de produzir enorme quantidade de conteúdo, mas nem sempre na mesma proporção de ideias. A velocidade da comunicação aumentou muito mais do que sua densidade. E a necessidade permanente de engajamento passou a recompensar aquilo que provoca reação imediata, não necessariamente reflexão. 

Isso ajuda a compreender por que o debate público parece, tantas vezes, mais ruidoso e menos profundo. 

Não é preciso concluir que os candidatos brasileiros sejam intelectualmente inferiores aos de outras épocas. Essa seria uma avaliação difícil de sustentar objetivamente. É suficiente observar algo mais concreto: a baixa densidade intelectual e programática de uma parcela significativa da comunicação eleitoral. 

Quanto espaço é dedicado à explicação de políticas públicas? 

Quanto é dedicado a humor, ataque, encenação, vida pessoal, provocação e entretenimento? 

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes para compreender a eleição deste ano. 

Mas seria confortável demais colocar toda a responsabilidade sobre os candidatos. 

Campanhas observam a sociedade para a qual falam. Testam mensagens, acompanham métricas e aprendem rapidamente o que produz atenção. 

O Brasil convive há décadas com enormes desigualdades educacionais, baixos níveis de alfabetismo funcional em parcelas relevantes da população e formação política muito irregular. Isso não significa que o brasileiro seja incapaz de compreender assuntos complexos. Significa apenas que conteúdos que exigem menos repertório, menos leitura e menos tempo encontram um ambiente particularmente favorável para circular. 

Uma discussão sobre orçamento público exige esforço. Uma piada chega pronta. 

Uma análise sobre federalismo exige conhecimento. Um bordão pode ser repetido por qualquer pessoa. 

A consequência é um circuito que se retroalimenta. 

As campanhas descobrem que conteúdos mais simples geram engajamento. Produzem mais conteúdos simples. Os algoritmos ampliam aquilo que desperta reação. O público se acostuma à linguagem. E o espaço reservado à argumentação fica cada vez mais estreito. 

Há oferta porque há demanda. Há demanda porque existe um ambiente cultural. E há amplificação porque existe um sistema tecnológico projetado para premiar atenção. 

A eleição, naturalmente, se adapta. 

Também por isso a política contemporânea talvez esteja selecionando competências diferentes das valorizadas no passado. 

Oratória, articulação partidária, conhecimento jurídico, experiência administrativa e capacidade de negociação continuam importantes. Mas agora convivem com outros atributos: presença digital, domínio da câmera, espontaneidade, senso de humor, capacidade de viralização e talento para transformar qualquer acontecimento em conteúdo. 

Nenhuma dessas habilidades é incompatível com preparo intelectual. 

O problema aparece quando passam a compensar sua ausência. 

Quando saber produzir um vídeo viral vale mais do que saber explicar uma política pública. 

Quando a performance rende mais dividendos do que a argumentação. 

Quando o personagem se torna mais importante que o projeto. 

Esse fenômeno ganha ainda mais força em uma campanha atravessada por denúncias, investigações, escândalos e acusações. Na lógica das redes, uma crise pode ser rapidamente substituída por outra. Uma acusação é seguida por uma resposta, depois por um meme, depois por um contra-ataque, até que um novo assunto desloque todos os anteriores. 

A política também aprendeu a administrar o esquecimento. 

O conteúdo permanente não serve apenas para comunicar. Serve para ocupar espaço. 

Essa mudança não começou no Brasil e tampouco terminará aqui. Estados Unidos, Reino Unido, México, Argentina e outras democracias atravessam processos semelhantes. A chamada “tiktokização” da política é parte de uma tendência mundial em que emoção, personalidade, espontaneidade e performance assumem peso crescente. 

O que varia é o terreno em que essa transformação se desenvolve. 

No Brasil, ela encontra uma sociedade altamente conectada, uma tradição política fortemente personalista, fragilidades educacionais persistentes e uma relação intensa com conteúdos emocionais e audiovisuais. 

O resultado é uma combinação poderosa. 

Talvez 2026 marque, por isso, uma transição importante: da política do discurso para a política da atenção. 

Isso não significa que a política esteja condenada à superficialidade. Uma ideia complexa pode ser explicada de forma simples. Um bom comunicador consegue traduzir sem empobrecer. Um vídeo curto pode transmitir informação relevante. Humor pode aproximar cidadãos da vida pública. 

Simplificar não é o problema. 

O problema é eliminar. 

Há uma diferença enorme entre tornar uma ideia compreensível e substituir a ideia por uma performance. 

Essa diferença talvez seja uma das fronteiras mais importantes da democracia contemporânea. 

Campanhas continuarão buscando votos. É natural que utilizem as ferramentas que funcionam. Mas uma sociedade deveria ser capaz de exigir algo depois da piada, do meme, da dancinha e da trend. 

Deveria ser capaz de perguntar: 

qual é a proposta? 

Porque o problema não começa quando o político dança. 

Começa quando, depois da música, percebemos que não havia muito mais a ser dito. 

Cristovão Pinheiro