
Por, José Aroldo da Silva – Sociólogo; Professor de Educação Básica
Eram dez horas da manhã e o sol escaldante não dava trégua quando a comitiva de candidatos desembarcou na pequena cidade do interior. O cenário poderia ser qualquer município do interior do Brasil; o mês, um setembro qualquer; e o ano, qualquer um marcado pelo calendário eleitoral. Integrando o préstito, desfilaram candidatos ao Governo do Estado, ao Senado, a Deputado Federal e a Estadual — todos respaldados por uma liderança política local. Vale registrar: liderança da oposição municipal, já que o evento da situação ocorrera na véspera, com a mesma pompa e o mesmo vazio.
A chegada foi anunciada aos quatro cantos com uma estrondosa queima de fogos. O estampido cortava o ar e ecoava por toda a zona urbana, semeando o desespero entre idosos, autistas e animais. Uma demonstração explícita de desrespeito a uma lei estadual que proíbe fogos ruidosos — provando que, para essa comitiva, a afronta aos direitos da população começa logo nas boas-vindas.
A cidade que recebia esses pretensos representantes do povo — cujas visitas se repetem religiosamente a cada quatro anos — conta com apenas quatro mil habitantes. Em sua grande maioria, são usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) e beneficiários de programas sociais federais: uns vivem do Bolsa Família, outros do Gás do Povo ou do Pé-de-Meia, todos mantidos a troco dos impostos pagos pela própria população.
Para animar a massa, o paredão de som ecoava jingles eleitorais carregados de virtudes inventadas: “Esse vai defender o povo”, “Aquele já mostrou que sabe fazer” (sabe-se lá o quê), “Fulano conhece a nossa gente”. Entre um refrão e outro, ressoava a provocativa “A rural vai viajar”, cutucando os adversários e antecipando o clima para o pleito municipal dali a dois anos.
Quanto às propostas concretas? Não trouxeram nada — exceto as malas. Nenhuma palavra sobre a melhoria da saúde pública, da educação, da geração de empregos ou do aumento da renda para os moradores. O cardápio do dia limitou-se a abraços encenados, dedos em forma de “V” de vitória e provocações baratas para agitar a plateia e desviar a atenção do que realmente importa. Coisas que a comitiva não trouxe e, pelo visto, jamais trará.