Lucas Ribeiro mantém a religião como parte de sua imagem pessoal, Efraim Filho incorpora a fé à marca eleitoral e Cícero Lucena associa referências a Deus à própria trajetória política. Pesquisas mostram, porém, que religiosidade não explica sozinha a escolha do eleitor.

Foto: Agência Gaúcha de Fotografia/ IA
A fé já ocupa espaço visível na campanha pelo Governo da Paraíba. Ela aparece na participação do governador Lucas Ribeiro em cultos, no slogan “Bote fé na mudança”, usado por Efraim Filho, e nas declarações de Cícero Lucena de que sua candidatura representa uma “missão dada por Deus”. Os três recorrem à religião, mas de maneiras diferentes.
A análise de vídeos, postagens, discursos e peças divulgadas pelos três principais candidatos mostra que não existe uma fórmula única. Lucas mantém a religião como parte de sua identidade, mas concentra sua comunicação em governo, obras e continuidade administrativa. Efraim transformou a palavra “fé” em elemento da própria campanha e a relaciona a valores conservadores e à ideia de mudança. Cícero recorre com frequência a Deus ao falar da própria trajetória, dos desafios políticos e da decisão de disputar o governo.
A presença da religião não é um detalhe em um estado de forte tradição cristã. De acordo com o Censo 2022 do IBGE, 69% dos paraibanos com 10 anos ou mais se declararam católicos. Outros 20,8% disseram ser evangélicos. Pessoas sem religião representavam 6,2%. Em 2010, os católicos eram 77,3% e os evangélicos, 14,9%.
Os números mostram duas mudanças ao mesmo tempo. A Paraíba continua majoritariamente cristã, mas a presença católica diminuiu enquanto o grupo evangélico cresceu. Para as campanhas, isso significa um eleitorado numeroso, organizado e presente também em ambientes que vão além da política tradicional, como igrejas, grupos de oração, comunidades religiosas e redes de WhatsApp.
Isso não significa, porém, que exista um “voto religioso” único.
Pesquisa mostra limites da associação entre religião e voto
Pesquisa Quaest realizada em agosto apontou Lucas Ribeiro na liderança da disputa pelo Governo da Paraíba, com Cícero Lucena e Efraim Filho em seguida. Quando os entrevistados foram separados por religião, Lucas também apareceu à frente entre católicos e numericamente entre evangélicos.
Entre os católicos, Lucas tinha 39%, Cícero 21% e Efraim 16%. Entre os evangélicos, Lucas registrava 33%, Efraim 29% e Cícero 13%. A margem de erro no grupo evangélico era maior, o que colocava Lucas e Efraim em situação de empate técnico nesse segmento.
O resultado chama atenção porque Efraim é justamente o candidato que mais incorpora a fé à identidade visual e verbal da campanha. A pesquisa indica que intensidade de referências religiosas e intenção de voto não são a mesma coisa.
Gestão, identificação política, avaliação de governos, preferência presidencial, alianças, renda, região e rejeição aos candidatos também interferem na decisão do eleitor.
A própria pesquisa mostra isso. Entre eleitores identificados com o bolsonarismo, Efraim obtinha desempenho superior. Entre os que se declaravam lulistas, Lucas aparecia com vantagem. Religião e posição política se cruzam, mas uma não substitui a outra.
COMO A FÉ APARECE NAS TRÊS CAMPANHAS
| Candidato | Uso predominante da fé | Principal mensagem política |
|---|---|---|
| Lucas Ribeiro | Identidade pessoal e participação religiosa | Gestão, continuidade, realizações e alianças |
| Efraim Filho | Slogan, identidade cristã e valores conservadores | Mudança, direita, segurança e família |
| Cícero Lucena | Fé pessoal, proteção e ideia de missão | Experiência, trajetória e serviço público |
A classificação considera apenas a comunicação pública dos candidatos. Não pretende medir a sinceridade da crença religiosa de nenhum deles.
Lucas: fé aparece, mas gestão permanece no centro
Lucas Ribeiro começou o primeiro domingo da campanha participando de um culto antes de seguir para atos políticos em João Pessoa. Também esteve em celebrações evangélicas ao longo da campanha e já havia feito referências a Deus em discursos anteriores, inclusive quando assumiu o Governo do Estado.
A religião, porém, não aparece como a principal marca de sua comunicação.
Os conteúdos de Lucas nas redes são dominados por ações de governo, obras, saúde, segurança, emprego, juventude, desenvolvimento econômico e alianças políticas. A família também aparece com frequência.
No horário eleitoral, a campanha manteve esse padrão. O candidato procurou vincular sua imagem à continuidade da atual administração e à promessa de fazer os resultados do governo chegarem a mais pessoas.
Nesse caso, a fé funciona principalmente como característica pessoal. O candidato mostra que é religioso, participa de celebrações e menciona Deus, mas não transforma a religião no principal argumento para pedir voto.
Essa escolha permite que Lucas dialogue com eleitores religiosos sem fazer da identidade religiosa o centro da campanha.
Também ajuda a entender um dado das pesquisas: mesmo usando menos referências religiosas do que os adversários, o governador aparece competitivo entre evangélicos e lidera entre católicos.
Efraim: a fé entra no próprio slogan
Efraim Filho apresenta a utilização mais explícita da religião como elemento de comunicação eleitoral.
“Bote fé na mudança” tornou-se uma das principais frases da campanha. A expressão trabalha com dois sentidos ao mesmo tempo. “Bote fé” pode significar confiar em uma proposta política, mas também remete diretamente à linguagem religiosa.
A expressão já aparecia antes do início oficial da campanha. Em atos com dirigentes do PL e lideranças ligadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, a palavra “fé” começou a ser associada à candidatura de Efraim.
O mesmo ocorreu em vídeos com apoiadores nacionais. Em uma peça com Michelle Bolsonaro, por exemplo, a expressão “Bote fé na Paraíba” foi utilizada no encerramento.
Na convenção partidária, momentos de oração e louvor também fizeram parte do ambiente político.
A estratégia não se limita à palavra “fé”. A campanha procura apresentar Efraim como cristão, marido e pai e relaciona essa identidade a bandeiras como defesa da família, segurança pública, combate às drogas e valores conservadores.
Uma das inserções eleitorais reuniu temas como combate ao crime organizado, impostos, oposição à legalização das drogas e defesa da família. A mensagem procurava estabelecer uma identificação direta entre candidato e eleitor.
A religião, portanto, aparece integrada a uma posição política mais ampla.
Efraim não apenas declara fé. A campanha transforma a própria palavra em marca eleitoral.
O efeito pode ser importante entre eleitores conservadores e evangélicos, especialmente porque o candidato também está associado ao campo bolsonarista. A pesquisa Quaest mostrou desempenho elevado de Efraim entre eleitores identificados com esse grupo político.
Não é possível, entretanto, concluir que o uso da fé tenha produzido esses votos. A preferência presidencial e a identidade ideológica também ajudam a explicar o resultado.
Cícero: Deus aparece ligado à trajetória política
Cícero Lucena segue outro caminho.
Em vez de transformar a fé em slogan, ele costuma utilizá-la ao falar da própria história política e de sua decisão de disputar o Governo do Estado.
Ainda na pré-campanha, Cícero afirmou que chegar ao governo representaria uma “missão dada por Deus”.
Na convenção que oficializou sua candidatura, disse que a política seria uma espécie de sacerdócio e relacionou cargos que ocupou ao longo da vida à vontade de Deus.
A associação voltou a aparecer depois de o Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba deferir sua candidatura. Em vídeo publicado nas redes sociais, Cícero agradeceu a decisão, disse confiar na Justiça e principalmente em Deus e afirmou que os adversários “não sabem o tamanho do Deus que eu tenho”.
A frase tornou mais evidente a forma como a fé é usada em sua comunicação.
Deus não aparece apenas como referência religiosa. Surge como parte da explicação de sua trajetória, de sua resistência política e de sua confiança diante dos adversários.
É diferente da estratégia de Efraim.
Enquanto Efraim utiliza uma expressão religiosa como marca repetida de campanha, Cícero faz da fé uma maneira de explicar sua própria caminhada.
Ao mesmo tempo, a comunicação geral de Cícero não se resume a isso. A campanha também destaca experiência administrativa, passagem pela Prefeitura de João Pessoa, propostas e contato direto com eleitores.
A religião funciona como parte de sua história pessoal e política.
Esse uso traz também uma discussão delicada. Quando um candidato apresenta uma disputa eleitoral como “missão dada por Deus”, crença pessoal e legitimidade política se aproximam.
A Constituição garante liberdade religiosa e nenhum candidato precisa esconder sua fé para disputar uma eleição. A questão é outra: até que ponto uma convicção pessoal passa a ser usada como argumento para convencer o eleitor de que determinada candidatura teria uma aprovação superior à própria escolha política?
Religião não é novidade na política
A relação entre fé e eleição não começou em 2026.
A religião participa da política brasileira desde muito antes da redemocratização. O que se intensificou nas últimas décadas foi a organização política de setores religiosos, especialmente evangélicos, e o uso da religião como elemento direto de campanha.
A eleição presidencial de 2010 é um exemplo. Discussões sobre aborto, família e valores religiosos ganharam espaço relevante na disputa entre Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva.
Em 2018 e 2022, a religião voltou a ocupar posição importante, principalmente na relação entre Jair Bolsonaro e parcelas do eleitorado evangélico.
Pesquisas acadêmicas ajudam a entender por quê.
Estudo publicado na Revista Brasileira de Ciência Política analisou a eleição de 2022 e encontrou associação entre mensagens de apoio de lideranças religiosas a Bolsonaro e maior probabilidade de voto no então presidente entre católicos e evangélicos.
Outro trabalho, sobre 2018, identificou relação entre frequência aos cultos e voto em Bolsonaro. A explicação proposta é que quem participa mais da comunidade religiosa fica também mais exposto a mensagens, debates e orientações de pessoas em quem confia.
Os pesquisadores, porém, fazem uma distinção importante: associação não é necessariamente causa.
Uma pessoa pode votar em determinado candidato porque ouviu uma liderança religiosa. Mas também pode frequentar uma igreja cuja liderança pensa politicamente de maneira semelhante à sua.
É difícil separar completamente os dois fenômenos.
Redes sociais ampliam o alcance
A internet acrescentou uma nova dimensão ao uso eleitoral da religião.
Uma manifestação que antes ficaria restrita a um templo pode agora ser transformada em vídeo, Reel, Story, corte, mensagem de WhatsApp ou publicação no TikTok.
Uma oração realizada diante de algumas centenas de pessoas pode alcançar milhares ou milhões depois de publicada.
Isso favorece conteúdos religiosos porque eles costumam trabalhar com elementos de fácil identificação: Deus, família, Bíblia, oração, proteção, esperança, medo e pertencimento.
Há também outra vantagem política.
Uma propaganda oficial chega ao eleitor como propaganda.
Uma mensagem compartilhada por um familiar, amigo, pastor, padre ou integrante da igreja chega acompanhada de uma relação de confiança que já existia antes da eleição.
Essa diferença ajuda a explicar a importância do WhatsApp.
Nos grupos religiosos, política pode circular misturada a mensagens de oração, aniversários, pedidos de ajuda, vídeos e informações da própria comunidade.
A mensagem eleitoral deixa de aparecer apenas como comunicação de campanha e passa a circular dentro de relações pessoais.
Isso pode aumentar a capacidade de mobilização.
Não significa, contudo, que compartilhamento seja voto.
Um vídeo religioso com milhares de visualizações pode ter sido visto por apoiadores, adversários ou pessoas apenas curiosas. Curtidas, comentários e compartilhamentos medem reação digital. Não demonstram, sozinhos, mudança de escolha eleitoral.
A fé também pode produzir rejeição
O uso político da religião não traz apenas vantagens.
Quando a manifestação parece coerente com a história do candidato, tende a ser percebida como parte de sua identidade.
Quando aparece de maneira repentina ou excessivamente ligada à eleição, pode gerar desconfiança.
A literatura sobre religião e política registra inclusive situações em que o uso exagerado de símbolos religiosos produz efeito contrário, especialmente quando o eleitor percebe oportunismo.
Essa é uma fronteira importante para as três campanhas paraibanas.
Lucas corre menos risco de ficar restrito a um público religioso porque a fé não domina sua comunicação.
Efraim pode fortalecer sua identificação com eleitores cristãos e conservadores, mas precisa evitar que sua campanha pareça dirigida apenas a esse segmento.
Cícero possui histórico de manifestações religiosas anteriores à campanha, o que reforça a coerência pessoal, mas frases que associam a candidatura diretamente a uma missão divina podem gerar questionamentos sobre a mistura entre fé e disputa política.
O que diz a lei
A legislação brasileira não impede candidatos de frequentarem igrejas, participarem de missas ou cultos, citarem Deus ou expressarem sua religião.
O Brasil é um Estado laico, mas isso não significa uma sociedade sem religião.
O limite aparece principalmente quando o espaço religioso é utilizado para propaganda eleitoral.
A Lei das Eleições considera templos religiosos bens de uso comum para fins eleitorais, ainda que sejam de propriedade privada. Por isso, a propaganda eleitoral nesses locais é proibida.
O Tribunal Superior Eleitoral também já decidiu que não existe uma categoria autônoma chamada “abuso de poder religioso”. Isso não significa que qualquer comportamento seja permitido. Dependendo das circunstâncias, a Justiça Eleitoral pode analisar abuso de poder econômico, político ou outras irregularidades.
Até aqui, a análise das três campanhas trata de comunicação política. A presença de candidatos em celebrações religiosas ou as declarações citadas nesta reportagem não representam, por si só, uma irregularidade.
O paradoxo da eleição paraibana
A disputa apresenta um dado curioso.
Efraim é quem mais claramente transformou a fé em elemento de campanha.
Cícero é quem utiliza algumas das declarações mais fortes relacionando Deus à própria candidatura.
Lucas faz um uso mais discreto da religião.
Mesmo assim, Lucas liderava entre católicos e aparecia numericamente à frente entre evangélicos na pesquisa analisada.
O resultado mostra que o eleitor religioso não escolhe candidato apenas pela religião.
A fé pode gerar identificação. Pode reforçar confiança. Pode ajudar na mobilização e aproximar o político de uma comunidade.
Mas ela disputa espaço com avaliação de governo, alianças, ideologia, propostas, rejeição e identificação com lideranças nacionais.
Na Paraíba, os três principais candidatos compreenderam o peso desse componente.
Lucas apresenta a religião como parte de quem é.
Efraim transformou a fé também em marca política.
Cícero utiliza Deus como parte da explicação de sua trajetória e de sua decisão de concorrer.
O jornalismo não pode determinar qual deles possui fé mais verdadeira. Essa avaliação pertence à esfera pessoal.
O que pode ser observado é a maneira como a crença entra na campanha e passa a fazer parte da disputa pelo voto.
Essa diferença será cada vez mais importante até outubro.
Em um estado no qual católicos e evangélicos representam a ampla maioria da população, a fé dificilmente ficará fora da eleição.
Caberá ao eleitor distinguir três elementos que, durante uma campanha, podem aparecer cada vez mais próximos: crença pessoal, identidade política e estratégia eleitoral.
Da Redação, O Norte.