
Referências religiosas recuam nos nomes de urna, mas fé, família, identidade cristã e proteção ganham espaço no discurso político e nas redes sociais
A religião mantém peso na disputa eleitoral de 2026, mas começa a aparecer de maneira diferente na comunicação política. Em vez de depender apenas da identificação explícita de candidatos como pastores, bispos ou representantes de determinada igreja, referências à fé passam a ser incorporadas a discursos sobre família, proteção, liberdade, segurança, justiça social e propósito. A mudança não significa uma retirada da religião da política. Os sinais apontam para uma transformação na forma como ela é apresentada ao eleitor.

Um dos indícios está nos próprios nomes de urna. Levantamento do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e do Common Data identificou 445 candidaturas com referências religiosas no nome em 2026, equivalentes a 2,2% das 20.448 candidaturas analisadas. Em 2022, a proporção era de 2,7%. Apesar da queda, o termo “pastor” e suas variações ainda aparece em 285 dessas candidaturas, mostrando que a identificação religiosa direta permanece relevante, sobretudo nas disputas proporcionais.
A mudança fica mais evidente nas redes sociais. Monitoramentos realizados pela Casa Galileia e pelo Instituto Democracia em Xeque mostram que o debate religioso passou a incorporar expressões e temas que ultrapassam a denominação religiosa. Candidatos e lideranças são apresentados como “cristãos”, pessoas “de propósito” ou defensores de valores associados à família, à liberdade e à proteção. Ao mesmo tempo, diferentes grupos políticos disputam o significado desses conceitos. Enquanto setores conservadores relacionam a fé principalmente a pautas morais, segurança e enfrentamento político, lideranças evangélicas de esquerda associam o cristianismo a democracia, justiça social e proteção dos mais vulneráveis.

Isso não significa que a linguagem religiosa explícita tenha desaparecido. À medida que a eleição se aproxima, o monitoramento digital registra orações, referências bíblicas, declarações públicas de voto e até interpretações da política como uma disputa espiritual entre o bem e o mal. O relatório mais recente do Instituto Democracia em Xeque, divulgado em 17 de setembro, identificou uma intensificação dessas narrativas no ecossistema evangélico, ao mesmo tempo em que diferentes campos políticos tentam apresentar suas posições como compatíveis com valores cristãos.

O peso desse universo é explicado também pela transformação religiosa do país. Segundo o Censo 2022, 56,7% dos brasileiros com 10 anos ou mais se declaravam católicos e 26,9%, evangélicos. Outros 9,3% afirmavam não ter religião. Em números absolutos, eram aproximadamente 100,2 milhões de católicos, 47,4 milhões de evangélicos e 16,4 milhões de pessoas sem religião. A composição também varia fortemente conforme idade e região, o que impede tratar o chamado “voto religioso” como um comportamento uniforme.

Outro dado ajuda a dimensionar essa complexidade. Pesquisa Datafolha de julho mostrou que 67% dos entrevistados afirmavam que a opinião de líderes de suas igrejas não teria influência sobre a escolha presidencial, enquanto 23% declaravam muita ou alguma influência. O resultado sugere que pertencimento religioso e orientação direta de líderes não são necessariamente a mesma coisa. A fé pode funcionar como referência de identidade e valores mesmo quando o eleitor afirma decidir o voto de forma independente.
O que emerge das eleições de 2026, portanto, é uma disputa que já não se limita a saber qual candidato possui apoio de determinada igreja. A religião passa também a funcionar como uma linguagem por meio da qual temas políticos são interpretados e apresentados ao público. Se essa transformação se consolidar, a principal mudança desta eleição poderá ser resumida menos como um crescimento ou redução da religião na política e mais como uma mudança de formato: menos religião como rótulo e mais religião como linguagem.
Da Redação, O Norte.